terça-feira, 11 de agosto de 2015


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Urocultura - Microbiologia #dia2


As infecções do trato urinário (ITU) podem ocorrer em pessoas de todas as idades e sexo, entretanto, ocorre com maior frequência em mulheres, devido as características do sistema urinário feminino. Os principais agentes que causam estas infeções são as enterobactérias, entre elas Escherichia coli, Klebsiella pneumoniae, Proteus spp e Enterobacter spp. Agentes gram-positivos também podem causar ITU, sendo os principais os estafilococos, com destaque para Staphylococcus saprophyticus e Enterococcus ssp.
Estas infecções são classificadas em:
·   Bacteriúria assintomática: há presença de bactérias, mas sem sintomatologia. Achado importante em grávidas e crianças com refluxo vesicoureteral.
·   Cistite: infecção da bexiga com disúria como principal sintoma.
·   Pielonefrite: infecção que acomete rins e pélvis, com presença de febre e geralmente associada e infecção sistêmica.
·   ITU complicada: infecção que acomete indivíduo com anormalidade do sistema urinário.
Há ainda as ITUs não complicadas, que geralmente, são diagnosticadas na sedimentoscopia, sem necessidade de cultura.
Pelo fato de que as ITUs são bastante frequentes, a urocultura é o exame mais solicitado em laboratórios de microbiologia. A urocultura, portanto, é cultura de urina para identificação de microrganismos causadores de infecções no trato urinário.

AMOSTRA
A urina de jato médio é a amostra mais comum para a realização de cultura. Entretanto, pode-se fazer a coleta também de urina de qualquer jato, urina de paciente com cateterismo vesical, coleta por sonda de alívio, por punção suprapúbica e amostra de primeiro jato. Para a utilização destes tipos de amostra, as indicações de coleta devem ser seguidas criteriosamente, para maior confiabilidade do exame.

CULTURA
A semeadura da urina pode ser feita de duas formas:

·      Quantitativa: com alça calibrada de platina ou de plástico (de 10µl ou 1µl). Pode ser realizada em MacConkey, CLED ou meio cromogênico. A interpretação é feita de acordo com o crescimento das colônias. É importante ressaltar que, se observado cocos gram-positivos no gram, é recomendado que a semeadura seja feita também em ágar-sangue.

·      Semiquantitativa: com sistema de laminocultivo. O laminocultivo consiste em uma embalagem plástica cilíndrica, com um suporte conectado na tampa com duas faces. Em uma das faces, há o meio CLED (meio que inibe o véu do Proteus spp. e onde é realizada a contagem no laminocultivo), onde cresce todas as bactérias e na outra face, há o meio de citrato e MacConkey, um meio seletivo para bacilos gram-negativos. Nesta face, é possível realizar o teste de indol com reativo de Kovacs, o que auxilia muito no processo de identificação.
 
Laminocultivo e Reativo de Kovacs
 Ressaltamos que a coloração de gram (já descrita no blog) acompanha todo o processo de identificação das bactérias causadoras da infecção. Além disso, é importante que o microbiologista consulte a urina I do paciente, já que o número elevado de leucócitos e presença de bactérias na sedimentoscopia indicam infecção. É preciso também levar em conta a sintomatologia, idade, sexo e histórico do paciente. E com tudo isso, comparar com a contagem de colônias, descartando ou não possíveis contaminações e infecções verdadeiras.
Para a identificação de possíveis contaminações, é importante observar a quantidade de leucócitos e caso haja mais de um microrganismo predominante na placa (com leucócitos normais), é recomendado que seja pedida uma nova amostra.

INTERPRETAÇÃO E CONDUTA

Para a interpretação das culturas de urina, podemos entender o seguinte:
·  Sem crescimento, sem presença de leucócitos e com presença ou ausência de sintomatologia: NEGATIVO, e não há infecção.
·      Sem crescimento, com presença de leucócitos, com ou sem sintomatologia: NEGATIVO, mas pode haver sim infecção, como por exemplo por gonococo, ureaplasma, clamídia, ou o paciente está fazendo uso de antibióticos.
·      < 105 UFC/mL, com ausência de leucócitos, e dois ou mais microrganismos (MOs): faz-se a identificação e leva-se em conta também a sintomatologia para interpretações mais específicas.
·  < 105 UFC/mL, sem leucócitos, e dois ou mais MOs: faz-se a identificação. Caso haja sintomatologia, recomenda-se também o antibiograma.
·    ≥ 105 UFC/mL, sem leucócitos, com um ou mais MOs: faz-se a identificação, e leva-se em conta a sintomatologia para interpretações mais específicas.
·    ≥ 105 UFC/mL, com leucócitos, com ou sem sintomatologia: além da identificação, faz-se também antibiograma.

Observações relevantes:

Ø No gram, a presença de muitas células epiteliais e de mais de um tipo de MO sugere contaminação de coleta.
Ø Na maioria dos casos, culturas com baixa contagem são negativas. Entretanto, alguns MOs, mesmo que com baixa contagem, são muito importantes, e deve-se fazer identificação e antibiograma.
Ø A cultura de ponta de Foley não deve ser realizada, uma vez que o crescimento de MOs representa a microbiota da uretra distal.
Ø Se houver solicitação de pesquisa de fungos, semear em meios específicos, como o Saboraud.
Ø A coleta e o transporte são passos muito importantes para o exame, e devem seguir critérios específicos para um resultado confiável.

Respondendo a pergunta colocada no facebook:

O que fazer quando isolamos um Streptococcus agalactiae em cultura de urina de jato médio com contagem < 105 UFC/mL, sem presença de leucocitúria no sedimento urinário?

Teste CAMP para identificação de S. agalactiae
Como dissemos anteriormente, alguns microrganismos são importantes mesmo com baixa contagem. Neste caso, o resultado deve ser sempre reportado, mesmo na ausência de leucocitúria, pois o Streptococcus do grupo B ou S. agalactiae é um agente importante, principalmente em grávidas, exigindo intervenção por parte do médico para prevenir infecções graves no recém-nascido. Neste caso, deve ser feito o diagnóstico do agente e teste de sensibilidade aos antimicrobianos, para que o tratamento seja instituído de maneira adequada. Os antimicrobianos a serem testados são: clindamicina, eritromicina, e penicilina ou ampicilina; os dois primeiros são drogas de escolha para pacientes alérgicas às penicilinas.

FONTES:
Oplustil, Carmem Paz, et al. Procedimentos básicos em microbiologia clínica. 3 ed. São Paulo : SAVIER, 2010.
Oplustil, Carmem Paz, et al. Microbiologia Clínica. Vol 2. São Paulo : SAVIER, 2012.
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