sábado, 13 de outubro de 2012


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O posicionamento do biomédico na cadeia de valor da saúde. Por que ganhamos tão pouco se estudamos tanto?

  O objetivo deste artigo é trazer a vocês alguma reflexão sobre o espaço ocupado pelos biomédicos dentro da cadeia de valor da saúde.
 A cadeia de valor da área da saúde é composta por diversos “atores” ou “agentes”, dentro desta da grande “indústria da saúde”, e constitui opções de carreiras profissionais que vão além àquelas ocupadas pelos biomédicos hoje em dia.
  Sabemos que o Biomédico possui diversas opções de especializações e carreiras para seguir. Acredito que mais de 80% dos Biomédicos seguem a área laboratorial, o que compreende as análises clínicas (bioquímica, hematologia, microbiologia, parasito, etc..), citologia, imagenologia, entre outras aquelas em que também vestimos nossos jalecos brancos, apoiados em uma bancada. São carreiras importantíssimas para a cadeia de valor da área da saúde, funções essenciais para o bom funcionamento da relação médico-paciente, onde estes dependem de um bom resultado laboratorial para a definição das condutas a serem adotadas em direção à cura.
  Mas isso não é novidade para ninguém – ao menos para aqueles vestibulandos que ainda não sabem o que é Biomedicina (ou para as minhas tias que nunca entendem o que faz um biomédico e teimam em achar que sou dentista)
  Estas carreiras tradicionais da Biomedicina estão posicionadas em um mesmo nível organizacional dentro de uma estrutura coorporativa vertical. Os Biomédicos que trabalham em laboratórios, seja com urinálises, biologia molecular, ou operando um tomógrafo, estão posicionados exatamente em um mesmo nível estrutural, em termos organizacionais. Parece abstrata esta sentença. Deixe-me explicar melhor.
  Toda organização, seja ela pública ou privada, com ou sem fins lucrativos, pequena ou de grande porte, de qualquer segmento, está organizada, de alguma forma, em níveis e funções.
  Pensemos em uma indústria automotiva, embora este exemplo sirva para qualquer ramo de atividade, alimentícia, calçados, têxtil, etc... Esta indústria automotiva tem o objetivo de fabricar e comercializar seus veículos. Todo o processo se inicia no chão de fábrica, onde existem operários que montam peças, operam máquinas de alto valor agregado, inspecionam peças e produtos finais. Estes operários de chão de fábrica, seus líderes e supervisores estão no nível de produção, o nível mais básico e essencial para que a coisa toda funcione. Eles são responsáveis pela materialização daquilo que sua empresa irá comercializar. Obviamente, esta indústria automotiva possui outros setores importantes, que dão apoio ao processo como um todo, tais como recursos humanos, financeiro, limpeza e conservação, manutenção, entre outros também fundamentais.
 À parte, existe outro nível organizacional, responsável por promover e vender os produtos que esta indústria produziu. Se não há promoção e divulgação dos produtos, não haverá vendas, se não há vendas, não haverá caixa para pagar os salários dos
funcionários, fornecedores, impostos, e assim por diante. Pergunto, qual nível organizacional está mais bem posicionado, em termos salariais? O operário de chão de fábrica ou o executivo de vendas? O supervisor de produção ou o gerente comercial? A diferença salarial destes dois grupos é gigantesca. Infelizmente, no Brasil, existe um gap salarial imenso entre níveis e funções. No Japão, por exemplo, esta diferença não é tão grande. Um executivo trajando seu terno e gravata ganha um pouco mais que o operário. Isto não significa que o executivo ganha mal, mas que o operário ganha muito bem. No Brasil, o salário do operário é, no mínimo, dez vezes menor que o do executivo. Eu disse no mínimo.
  O que todo este papo tem a ver com você, meu amigo Biomédico? Observe as duas figuras abaixo:

Figura 1
Figura2
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  A figura 1 mostra o núcleo técnico operacional de um grande laboratório de análises clínicas, compreendendo a bioquímica, imunologia, hematologia e todos os setores essenciais que já conhecemos em um laboratório clínico. Há muitos biomédicos ali trabalhando, operando máquinas de automação de alto valor agregado, o que exige certo grau de conhecimento para operá-las. Já a figura 2 mostra o chão de fábrica de uma indústria de produtos plásticos. Há muitos operários ali trabalhando, operando máquinas de automação de alto valor agregado, o que exige certo grau de conhecimento para operá-las. Coincidência?
  Vamos às diferenças das figuras:
  Os operários da fábrica de plástico são contratados pela CLT, ou seja, possuem carteira assinada, possuem também um bom sindicato, que garante a eles um dissídio digno a cada ano. Trata-se de uma classe de trabalhadores bem unida. Fazem greve se estão insatisfeitos, possuem 13º salário, são pagos ao fazer hora-extra, são bem pagos ao trabalharem à noite, ganhando um adicional noturno e posso afirmar que muitos operários ganham mais que os biomédicos da figura 1.
  Os biomédicos estudaram aproximadamente seis anos a mais que os operários. Trabalham em uma atividade relacionada à saúde humana. Muitos possuem pós-graduação e detêm nível intelectual mais avançado que os operários. Mai de 80% dos biomédicos deste laboratório trabalham em outro laboratório, fazendo dupla jornada de trabalho. Muitos também fazem plantões noturnos em hospitais. Trabalham em média, 6 horas a mais que os operários. Muitos trabalham sob o regime de cooperativas.
  Vamos às semelhanças das imagens:
 Em ambas as figuras, os trabalhadores envolvidos pertencem ao mesmo nível hierárquico dentro de suas organizações. São responsáveis pela linha de produção, pela materialização daquilo que será vendido. São essenciais para a cadeia de valor de seus mercados. Ambos trabalham no “chão de fábrica”. Há muitos trabalhadores no mercado, o que faz com que seus salários sejam bem baixos. Aqueles que os contratam estão pensando constantemente em substituí-los por alguma automação que execute melhor o seu trabalho, que seja mais produtivo e que onere menos a folha de pagamento da empresa. Basta pensar como era feito um hemograma há 30 anos e hoje em dia, ou, no processo produtivo de um carro há 30 anos e como é feito hoje. A automação não só substituiu os operários – e biomédicos, mas também adicionou valor ao processo, com ganho de produtividade, sensibilidade e redução de custos.
  Sim. O biomédico que trabalha “na bancada” ocupa a mesma posição de um operário. Isto não é um problema, muito menos uma tentativa de denegrir a imagem do biomédico ao compará-lo a um operário, mesmo porque este segundo desempenha uma função essencial para qualquer país industrializado, o motor de tudo. Assim é o biomédico, também.
  Circulando pela internet, me deparo com muitos fóruns promovendo atitudes e mudança de comportamento da parte dos biomédicos, sindicatos e órgãos de classes por melhores salários. Já li até algo sobre uma tal reinvindicação por um piso salarial para o biomédico. 
  Acho bacana este esforço, mas insustentável. O que regula o salário dos biomédicos não 
é um sindicato ou uma entidade de classe, mas sim o mercado. E o mercado está cheio de biomédicos dispostos a tomar três conduções para se chegar ao trabalho, trabalhar em dois empregos e dar plantões de final de semana, para no final do mês poder ter uma renda à altura de um profissional com terceiro grau completo (muitas vezes nem isso). Outro agravante é que em muitos casos, o empregador (um laboratório, geralmente) depende de fontes pagadoras – convênios médicos, seguros-saúde, e os valores pagos estão congelados há anos. Aumentar o salário dos biomédicos, contra o mercado, só piora a situação do biomédico no longo prazo, pois gera desemprego.
  O ponto crucial nesta reflexão é que 90% das especializações para os biomédicos, disponíveis nas universidades, faculdades e centros universitários, nos conduzem ao “chão de fábrica”. Hematologia, microbiologia, bromatologia, imagenologia, biologia molecular, perfusão extracorpórea, são exemplos de funções que estão no mesmo nível dentro da cadeia de valor da saúde. Cada especialidade com seu grau de dificuldade técnica, dinâmica e importância comercial, mas ainda posicionadas no mesmo nível estrutural das organizações.
  Este artigo não é uma crítica à profissão biomédica, mesmo porque é de fundamental importância que haja biomédicos dispostos a realizar tais funções, mas sim uma ferramenta para a compreensão do posicionamento dos profissionais biomédicos dentro de seu setor de atuação. Adicionalmente, este artigo, informal, visa trazer às vistas dos biomédicos e estudantes de biomedicina, que existem outras carreiras não técnicas que podem ser seguidas e conquistadas, uma vez que a cadeia de valor da saúde compreende agentes/atores que vão além dos laboratórios, hospitais e clínicas. A cadeia de valor compreende desde os fornecedores de matéria prima para a indústria de equipamentos médicos, hospitalares e laboratoriais, a própria indústria fabricante destes produtos, os distribuidores destes produtos, os usuários destes produtos, que são os laboratórios, hospitais e clínicas (ah, o biomédico está posicionado aqui), fontes pagadoras, como os convênios médicos, seguradoras e o governo através do SUS, agências reguladoras e de classes, até chegar ao paciente, que está na ponta desta cadeia.
  Como fazer a transição da bancada laboratorial para outros setores desta vasta cadeia? Este é o grande desafio do biomédico de hoje, uma vez que a graduação e a pós-graduação biomédica pouco nos mostra este caminho.
Continua... 

Texto:
Wagner Eiji Miyaura, M.Sc.
MBA – Fundação Getúlio Vargas – FGV – EAESP
Mestre pelo Depto de Patologia da UNIFESP-EPM – Universidade Federal de São Paulo
Especialista em Citopatologia pela Disciplina de Ginecologia da UNIFESP-EPM
Clinical Support Specialist – Latin America: Executivo responsável pelos produtos diagnósticos da Hologic Inc. para a América Latina

(o texto é um artigo enviado pelo próprio autor por e-mail. Sendo assim,trata-se de uma opinião unica e exclusivamente do autor. As imagens utilizadas são do próprio artigo.)

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