quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020


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Epidemia do novo Coronavírus - o que preciso saber?




Em 31 de dezembro de 2019, foi relatado o primeiro caso de infecção pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) em Wuhan, na China. Desde então, temos acompanhado o crescente número de infecções, e o surto acabou tornando-se uma epidemia, atingindo também outros países. Cientistas do mundo inteiro, inclusive os brasileiros, iniciaram uma busca incessante para entender esta nova cepa, e com isso, desenvolver métodos rápidos de diagnóstico e de prevenção. Até o momento desta postagem, o cenário é o seguinte:
·      81.311 casos confirmados em todo o mundo, sendo a maior parte ainda na China.
·      2.770 mortes.
·      30.322 casos de pacientes que se recuperaram.
Hoje, 26 de fevereiro de 2020, foi confirmado o primeiro caso no Brasil. A vítima é um homem de 61 anos que deu entrada no Hospital Israelita Albert Einstein, com histórico de viagem para Itália, região da Lombardia.
Já que estamos diante do problema, o ideal é buscar informação para que possamos contribuir para que ele não se alastre.
O que é o Coronavírus?
Os coronavírus são vírus pertencentes à subfamília Coronavirinae, família Coronaviridae. São grandes vírus com uma única fita de RNA e um nucleocapsídeo (estrutura composta pelo ácido nucleico do vírus (neste caso RNA) e seu invólucro proteico, o capsídeo) helicoidal. São comuns em muitas espécies diferentes de animais, incluindo camelos, gado, gatos e morcegos. Em humanos, foram isolados pela primeira vez em 1937. Entretanto, foi em 1965 que o vírus foi descrito como coronavírus, em decorrência do perfil na microscopia: foram observadas espículas (estruturas proeminentes) presentes na superfície do vírus, o que lhe dá a aparência de uma coroa solar (corona em latim).

 

Lado esquerdo: ilustração do SARS-COV-2. Lado direito: imagem do SARS-CoV-2 por microscopia eletrônica de transmissão. Vírus isolado do primeiro caso australiano. Fonte: smh.com.

A infecção pelos tipos alfacoronavírus 229E e NL63 e betacoronavírus OC43, HKU1 é comum ao longo da vida, mas podem haver doenças mais graves com grande impacto em termos de saúde pública, como SARS-CoV e MERS-CoV  (Síndrome Respiratória Aguda Grave - SARS, identificada em 2002, e a Síndrome Respiratória do Oriente Médio - MERS, identificada em 2012; respectivamente),  e agora com esse novo vírus (chamado SARS-CoV-2 causador da "coronavirus disease 2019" ou somente COVID-19).
O sequenciamento genético realizado logo após a descoberta do novo vírus sugere que o SARS-CoV-2 é um betacoronavírus, como MERS-CoV e SARS-CoV. Segundo a OMS, esses três tipos têm origem em morcegos. 

Gravidade da doença
Até a última atualização do CDC, em 25/02/2020, sabe-se pouco sobre a COVID-19. O que temos até agora é a sua semelhança aos já conhecidos MERS-CoV e o SARS-CoV, que causam doenças graves em humanos. Entretanto, o quadro clínico completo em relação à COVID-19 não está totalmente esclarecido. As doenças relatadas variaram de leves a graves, incluindo doenças que resultam em morte. Segundo o CDC, “existem investigações em andamento para saber mais. Esta é uma situação em rápida evolução e as informações serão atualizadas à medida que estiverem disponíveis”. Não é possível definir com certeza a taxa de letalidade por alguns indivíduos não apresentarem sintomas e, portanto, não haver diagnóstico. De qualquer forma, considera-se a taxa mais elevada do que a gripe comum, e os casos de morte descritos foram em população idosa com doença com alguma comorbidade pré-existente.
  
Transmissão e propagação da doença
No início, acreditava-se somente na disseminação de animais para pessoas, pois os primeiros pacientes que apresentaram os sintomas tinham ligação com mercado de frutos do mar e animais vivos na China. Entretanto, devido ao crescente número de pacientes, incluindo pessoas de outros países como Estados Unidos que não tinham qualquer relação com estes mercados, pode-se sugerir a disseminação de pessoa para pessoa.
Já está confirmada a transmissão do vírus pelo ar ou por contato com secreções, como gotículas de saliva e catarro, ou seja, ele pode ser transmitido por espirros ou tosse. Além disso, segundo a OMS, o contato pessoal próximo ou com superfícies contaminadas também deve ser considerado, desde que o indivíduo toque suas mucosas (boca, nariz ou olhos) sem antes higienizar as mãos. É importante ressaltar que até o momento, é seguro receber encomendas da China ou de outro país que já notificou casos confirmados. Por experiência com outros coronavírus, sabe-se que esses tipos de vírus não sobrevivem por muito tempo em objetos, como cartas ou pacotes.  
O período médio de incubação por coronavírus é de 5 dias, com intervalos que chegam a 12 dias, período em que os primeiros sintomas levam para aparecer desde a infecção. Acredita-se que indivíduos que apresentam sintomas mais fortes sejam mais contagiosos, mas já foram relatados casos de propagação através de indivíduos assintomáticos. Por isso, até o momento, não há informações suficientes de quantos dias anteriores ao início dos sinais e sintomas uma pessoa infectada passa a transmitir o vírus.
  
Como é feito o diagnóstico?
Embora o quadro clínico completo não esteja totalmente elucidado, o diagnóstico clínico inicial se dá analisando características de uma síndrome gripal (casos iniciais leves, subfebris, podem evoluir para elevação progressiva da temperatura e a febre ser persistente além de 3-4 dias, ao contrário do descenso observado no caso de Influenza) e histórico de viagens e/ou contato com viajantes para o exterior. Essas informações devem ser registradas no prontuário do paciente para eventual investigação epidemiológica.



Para o diagnóstico laboratorial, são feitas coletas de materiais respiratórios. Orienta-se a coleta de aspirado de nasofaringe (ANF) ou swabs combinados (nasal/oral) ou também amostra de secreção respiratória inferior (escarro ou lavado traqueal ou lavado bronca alveolar). O padrão ouro para a identificação do SARS-CoV-2, é a RT-PCR em tempo real, e sequenciamento parcial ou total do genoma vira, a serem realizados nos Centros Nacionais de Influenza (NIC - sigla em inglês para National Influenza Center), que são referências para os Laboratórios Centrais de Saúde Pública (LACEN) de cada estado, conforme detalhado abaixo:

·      LACEN AL, BA, ES, MG, PR, RJ, RS, SC e SE: Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ/RJ);
·      LACEN AC, AM, AP, CE, MA, PA, PB, PE, RN, RR: Laboratório de Vírus Respiratórios do Instituto Evandro Chagas (IEC/SVS/MS);
·      LACEN DF, GO, MT, MS, PI, RO, SP, TO: Laboratório de Vírus Respiratórios do Instituto Adolfo Lutz (IAL/SES-SP).

Os detalhes sobre coleta de amostra, acondicionamento, transporte, laboratórios e fluxos estão descritos no último BoletimEpidemiológico 03 (Ministério da Saúde), divulgado em 21 de fevereiro de 2020.
O diagnóstico diferencial para o SARS-CoV-2 é a pesquisa de Influenza e outros vírus respiratórios, que inclusive pode ser feito em laboratórios privados, além dos LACEN. 

E tem tratamento?
Não existe tratamento específico para infecções causadas por coronavírus humano. No caso da COVID-19 é indicado repouso e consumo de bastante água, além de algumas medidas adotadas para aliviar os sintomas, conforme cada caso, como, por exemplo:
·  Uso de medicamento para dor e febre (antitérmicos e analgésicos).
·  Uso de umidificador no quarto ou tomar banho quente para auxiliar no alívio da dor de garanta e tosse.
Assim que os primeiros sintomas surgirem, é fundamental procurar ajuda médica imediata para confirmar diagnóstico e iniciar o tratamento.
Todos os pacientes que receberem alta durante os primeiros 07 dias do início do quadro (qualquer sintoma independente de febre), devem ser alertados para a possibilidade de piora tardia do quadro clínico e sinais de alerta de complicações como: aparecimento de febre (podendo haver casos iniciais sem febre), elevação ou reaparecimento de febre ou sinais respiratórios, taquicardia (aumento dos batimentos cardíacos), dor pleurítica (dor no peito), fadiga (cansaço) e dispneia (falta de ar).
  
Como prevenir o novo coronavírus?
O Ministério da Saúde orienta cuidados básicos para reduzir o risco geral de contrair ou transmitir infecções respiratórias agudas, incluindo o novo coronavírus. Entre as medidas estão:


  
As vacinas da gripe e pneumococo proteges contra o SARS-CoV-2?
Não. A vacina disponível atualmente previne contra outros tipos de vírus. Sua formulação contém proteínas de diferentes cepas do vírus Influenza definidas ano a ano conforme orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que realiza a vigilância nos hemisférios Norte e Sul. Existe vacina trivalente, com duas cepas de vírus A e uma cepa de vírus B, e vacina quadrivalente, com duas cepas de vírus A e duas cepas de vírus B.
De qualquer forma, esta vacina contribui para reduzir a circulação dos agentes no meio ambiente, o que ajuda a proteger também aqueles que não podem ser vacinados. Mesmo não sendo eficaz contra os tipos de coronavírus, principalmente SARS-CoV-2, o quadro clínico é o mesmo, e a vacinação já existente ajuda no diagnóstico diferencial dos casos.

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Bônus:
Clicando aqui você pode acompanhar em tempo real o avanço do vírus pelo mundo.

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Fontes:
Xu J. et al. Systematic Comparison of Two Animal-to-Human Transmitted Human Coronaviruses: SARS-CoV-2 and SARS-CoV. Viruses, 12, 244. 2020.
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