quarta-feira, 14 de setembro de 2016


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Desculpe o transtorno, preciso falar da Biomedicina


Conheci ela no fim de uma das melhores fases da minha vida. Essa frase pode parecer romântica se você imaginar que tudo foi perfeito e que não tinha dúvidas do que faria dali pra frente. Mas a melhor fase em questão era o terceiro ano do ensino médio, e a dúvida era qual carreira seguir. Eu tinha que prestar um vestibular, e só sabia que tinha o dom de ser cientista. Só isso. E a Biomedicina apareceu. Lá estava ela.
Enquanto todos ao redor seguiam para medicina, engenharia, ou algum outro curso mais conhecido, eu corri ao encontro do meu sonho. Ninguém entendia o que era essa tal da Biomedicina, mas ela já tinha me encantado. Foi paixão à primeira vista. Para ambas as partes.
Durante a faculdade foram noites sem dormir, mas eu já tinha certeza de que era isso que eu queria seguir. Passei algumas madrugadas acompanhada de Guyton, Lehninger, e outros tantos autores. Dos livros, migrei para os laboratórios, e lá conheci todo um universo maravilhoso.
Começamos a nos aproximar ainda mais. A Biomedicina e eu. Com ela pude conhecer um mundo novo, microscópico, colorido (e às vezes nem tanto). Com ela li e escrevi artigos, estudei o sistema complemento, o ciclo de Krebs, os fatores de coagulação, quis descobrir a cura de muitas doenças. Sei que um dia ainda consigo, com a ajuda dela. Fizemos amigos novos e com eles vamos fazer com que mais gente conheça a importância da nossa profissão. Sofremos com o pouco reconhecimento, com o ato médico, com a reprovação por parte de outras profissões. Nos alegramos quando colegas se destacam. Com a Biomedicina viajarei o mundo em busca de conhecimento e voltarei para que mais pessoas possam ter acesso a tudo isso. Das dez técnicas que mais gosto, sete foi ela que me mostrou. As outras três foi ela que criou. Aprendi o que era hematopoese e também o que era cianose, forame magno (e outros forames do corpo), espécies reativas de oxigênio, esferócitos, acantócitos, esquisóticos, CK, CKMB, bomba Na/K, cilindro hialino, e mais um monte de bactérias (Streptococcus, Staphylococcus, e vários bacilos gram negativos), sem falar de todos os parasitas e outras palavras que o Word tá sublinhando de vermelho porque o Word não teve a sorte de ser ter se formado Biomédico.
Um dia eu me formei. E não foi fácil. Chorei mais que no final do primeiro esfregaço bem feito ou uma PCR que não dá certo. Mas chorei de alegria. Até hoje, não tem um lugar que eu vá em que alguém não diga, em algum momento: o que é Biomedicina? Às vezes dá vontade de pedir para procurar no Google, mas sorrio e digo que somos cientistas e transformadores. Parece que, para sempre, ela vai fazer parte de mim.  
Essa semana, pela milésima vez, vi o meu CRBM – não por acaso estava sobre minha mesa de estudos. Achei que fosse chorar de alegria, como no dia da minha colação de grau. E o que me deu foi orgulho de ter me tornado quem eu sou e por estar vivendo tudo isso. Vou sempre buscar maior conhecimento e exercer a minha profissão com ética e competência.  Lembro-me sempre que poder da criação é divino, mas o da transformação é nosso e descobri que na verdade, a melhor fase da minha vida é agora. Não falta nada.

- Thassia Mariane Teodoro
(Adaptado do texto de Gregório Duvivier)


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