terça-feira, 20 de junho de 2017


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A epidemia de Sífilis no Brasil

Pode parecer demasia para assustar a população, mas é a realidade. Por motivos irrisórios, uma doença sexualmente transmissível que pode ser evitada com uso de preservativo, dá sinais quando aparece, e pode ser tratada, ainda assombra o cenário nacional, tornando-se uma epidemia. Esse foi o tema de uma matéria da Revista Superinteressante, publicada agora no dia 13 de junho.  O assunto é sério, e por isso, hoje aqui no Biomedicina em Ação, vamos falar sobre Sífilis.

O que é?

É uma Infecção Sexualmente Transmissível (IST) causada pela bactéria Treponema pallidum. Pode apresentar várias manifestações clínicas e diferentes estágios (sífilis primária, secundária, latente e terciária). Nos estágios primário e secundário da infecção, a possibilidade de transmissão é maior. 

Treponema pallidum em microscopia de varredura.

Como é transmitida e como prevenir?

A sífilis pode ser transmitida por relação sexual sem camisinha com uma pessoa infectada, ou da mãe infectada para a criança durante a gestação ou o parto.
O uso correto e regular da camisinha masculina ou feminina é uma medida importante de prevenção da sífilis. O acompanhamento da gestante durante o pré-natal contribui para o controle da sífilis congênita.

O que é a sífilis congênita?

É uma doença transmitida ao feto durante a gestação, através da passagem do treponema pela placenta. A doença é mais grave quanto mais recente for a infecção materna. São complicações dessa forma da doença: aborto espontâneo, parto prematuro, má-formação do feto, surdez, cegueira, deficiência mental e/ou morte ao nascer.

Segundo estudo realizado em 2004, estima-se que a taxa de prevalência de mulheres portadoras de sífilis no momento do parto seja de 1,6%. Isso corresponde a aproximadamente 49 mil parturientes infectadas e 12 mil nascidos vivos com sífilis, considerando-se uma taxa de transmissão de 25%, de acordo com estimativa da OMS (www.aids.gov.br).(Fonte: Telelab)

Mesmo quando não se manifesta com essas características, a infecção congênita pode permanecer latente, vindo a se expressar durante a infância ou mesmo na vida adulta. A definição da sífilis congênita deve ser feita pelo médico, o qual deve levar em consideração a comparação dos resultados dos testes não treponêmicos da mãe e da criança, os resultados dos exames de imagem e dos sinais clínicos presentes na criança.
Por isso, é importante fazer o teste para detectar a sífilis durante o pré-natal e, quando o resultado for positivo, tratar corretamente a mulher e sua parceria sexual, para evitar a transmissão vertical.

Quais os sinais e sintomas da doença?

Esse é o problema. Após a infecção, aproximadamente de 10 a 90 dias depois do contágio, aparece uma ferida, geralmente única, no local da entrada da bactéria (pênis, vulva, vagina, colo uterino, ânus, boca ou outros locais da pele). Essa ferida chamada cancro duro ou protossifiloma, tem a base endurecida, contém secreção serosa e muitos treponemas, não dói, não coça, e por isso, o indivíduo dificilmente vai procurar tratamento. Esta é a primeira fase da sífilis. As lesões sifilíticas facilitam a entrada do vírus da imunodeficiência humana (HIV). Além disso, a sífilis acelera a evolução para Aids e a infecção pelo HIV altera a história natural de sífilis

Começa com um machucado. Indolor, costuma não ser bonito, mas também não é o fim do mundo. Quando aparece na área genital, fica evidente nos homens, mas pode acabar escondido dentro da vagina sem chamar qualquer atenção. Há ainda outros casos discretos, como na garganta ou no ânus. Aí, quando você está começando a se preocupar, Bam! Desaparece. Parabéns! Seu sistema imunológico é mesmo incrível, né? Na verdade, não. Você só passou para a próxima etapa de uma doença que, a curto ou longo prazo, pode atacar seu cérebro, mudar a estrutura dos seus ossos, deformar seu rosto e matar seus filhos. Você tem sífilis. (Fonte: Superinteressante)


A cicatrização da ferida é espontânea. Depois de 6 semanas a 6 meses dessa cicatrização, se não houver tratamento, aparecem manchas e erupções (exantema) no corpo, principalmente nas palmas das mãos e plantas dos pés, caracterizando a fase secundária. Essas manchas também não coçam, e podem ser confundidas com algum processo alérgico, sobretudo porque podem surgir ínguas. Nesta fase, o treponema já invadiu todos os órgãos e líquidos do corpo.

O exantema se apresenta na forma de máculas, pápulas ou grandes placas eritematosas branco-acinzentadas denominadas condiloma lata, que podem aparecer em regiões úmidas do corpo. (Fonte: Telelab)

Depois, vem a sífilis latente, que é dividida em recente (menos de um ano de infecção) e tardia (mais de um ano de infecção). A duração é variável (pode durar até 40 anos!), e nessa fase, não é contagiosa, podendo ser interrompida pelo surgimento de sinais e sintomas da forma secundária ou terciária.
A fase terciária então pode surgir de 2 a 40 anos depois do início da infecção. É chamada fase da moléstia, pois costuma apresentar sinais e sintomas, principalmente lesões cutâneas, ósseas, cardiovasculares e neurológicas, podendo levar à morte.

As úlceras que começam a brotar pelo corpo são tão agressivas que, em regiões de contato direto da pele com ossos, como no crânio, o esqueleto começa a ser corroído. Na tíbia, principal osso da canela, o corpo até tenta combater a degeneração: conforme a erosão óssea aparece, o estrago vai sendo calcificado. A região afetada começa a engrossar e, com o avanço do desgaste, a canela vai ficando curvada. Em alguns casos, a bacia também é afetada e o doente perde a capacidade de andar em linha reta. Uma das maneiras mais antigas de identificar portadores de sífilis, inclusive, é ver se a pessoa caminha como um pato, rebolando por causa da bacia deteriorada. Implacável, a infecção ainda ataca os sistemas vascular e nervoso – o que pode acontecer precocemente entre a primeira e a segunda fase. Quando a bactéria finalmente ocupa o cérebro, o infectado começa a sentir alterações de humor e pode desenvolver demência. É a chamada neurosífilis. Nesta última fase, finalmente, transar não ameaça mais aos outros. A sífilis deixa de ser infecciosa e quer acabar somente com o portador.(Fonte: Superinteressante)

Como a sífilis é diagnosticada no laboratório?

Para o diagnóstico da sífilis podem-se utilizar os testes treponêmicos e os não treponêmicos. Os testes treponêmicos são qualitativos, ou seja, detectam a presença ou ausência de anticorpos contra antígenos do Treponema pallidum na amostra. Os testes não treponêmicos detectam anticorpos não treponêmicos, anteriormente denominados anticardiolipínicos, reagínicos ou lipoídicos. Esses anticorpos não são específicos para Treponema pallidum, porém estão presentes na sífilis. Os testes não treponêmicos podem ser: qualitativos – rotineiramente utilizados como testes de triagem para determinar se uma amostra é reagente ou não; ou quantitativos – são utilizados para determinar o título dos anticorpos presentes nas amostras que tiveram resultado reagente no teste qualitativo e para o monitoramento da resposta ao tratamento. O título é indicado pela última diluição da amostra que ainda apresenta reatividade ou floculação visível.
De acordo com as fases da doença, podemos observar o seguinte:

·      Sífilis primária:
Na sífilis primária, o diagnóstico laboratorial pode ser feito pela pesquisa direta do Treponema pallidum por microscopia de campo escuro, pela coloração de Fontana-Tribondeau, que utiliza sais de prata, e pela imunofluorescência direta. Os anticorpos começam a surgir na corrente sanguínea cerca de 7 a 10 dias após o surgimento do cancro duro. Por isso, nesta fase os testes sorológicos são não reagentes. O primeiro teste a se tornar reagente em torno de 10 dias da evolução do cancro duro é o FTA-abs, seguido dos outros testes treponêmicos e não treponêmicos. Quanto mais precocemente a sífilis primária for tratada, maior será a possibilidade de os exames sorológicos tornarem não reagentes. Porém, mesmo após a cura os testes treponêmicos podem permanecer reagentes por toda a vida.

·      Sífilis secundária:
Na sífilis secundária, todos os testes que detectam anticorpos são reagentes e os testes quantitativos tendem a apresentar títulos altos. Após o tratamento nesta fase, os testes treponêmicos permanecem reagentes por toda a vida do usuário, ao passo que os testes não treponêmicos podem ter comportamento variável. Em alguns indivíduos ficam não reagentes, e em outros permanecem indefinidamente reagentes em baixos títulos.

·      Sífilis latente:
Nesta fase, todos os testes que detectam anticorpos permanecem reagentes, e observa-se uma diminuição dos títulos nos testes quantitativos. Para diferenciar esta fase da infecção primária, deve-se pesquisar no líquor a presença de anticorpos, utilizando-se o VDRL. Evidencia-se sífilis latente quando o VDRL é reagente no líquor, acompanhado de baixos títulos no soro.

·      Sífilis terciária:
Nesta fase, os testes que detectam anticorpos habitualmente são reagentes e os títulos dos testes não treponêmicos tendem a ser baixos. Porém, podem ocorrer resultados não reagentes. Em usuários que apresentam sintomas neurais, o exame do líquor (LCR) é indicado, porém nenhum teste isoladamente é seguro para o diagnóstico da neurossífilis. Recomenda-se que o diagnóstico seja feito pela combinação entre a reatividade do teste e o aumento de células e de proteínas no LCR. Para testagem do LCR, o VDRL – que tem alta especificidade – é o exame recomendado, apesar de apresentar baixa sensibilidade (de 30% a 47% de resultados falso-negativos).

Relação entre testes para diagnóstico de sífilis, as fases da doença, o curso clínico da infecção e o tempo. Fonte: Ministério da Saúde. 


E o tratamento?

O tratamento é simples, feito com antibióticos, especialmente penicilina cristalina. Deve ser acompanhado com exames clínicos e laboratoriais para avaliar a evolução da doença e estendido aos parceiros sexuais.

Imagem ilustrativa de Bezetacil, para tratamento de sífilis. 


Por que a sífilis se tornou uma epidemia?

Um dos pontos de maior destaque na matéria da Revista Superinteressante está relacionado aos motivos que levaram à epidemia de sífilis. O Ministério da Saúde decretou epidemia em outubro de 2016, já que desde 2010, foram notificados quase 228 mil novos casos; só entre 2014 e 2015 houve um aumento de 32% nos casos de sífilis entre adultos – e mais de 20% em mulheres grávidas. A maior parte dos casos está na região Sudeste (56%), a mais urbanizada e desenvolvida do País. Em 2015, tivemos 6,5 casos de bebês infectados a cada mil nascidos vivos; sendo esse valor 13 vezes maior do que a Organização Mundial da Saúde considera aceitável.
E como dizemos anteriormente, o tratamento é muito simples se comparado a outras ISTs. Além disso, é muito barato! Talvez esse seja o problema. Além da queda no uso de preservativos para evitar a sífilis e outras infecções, o acesso à penicilina passou a ser aliado para que tudo isso culminasse para o estado alarmante que vivemos hoje. Chega a ser piegas o fato de um dos problemas ser o acesso ao antibiótico mais antigo que existe.
Resumidamente, o que acontece é que, por ser barata, a indústria farmacêutica não se interessa em fabricar: falta penicilina nas prateleiras. Além disso, existe o risco de choque anafilático: ninguém quer aplicar sem estrutura adequada. Os parceiros de mulheres grávidas com sífilis não tomam medicamentos e, portanto, continua o ciclo.
E por fim, esta epidemia acontece há mais tempo do que possamos imaginar. Isso porque só em 2010 o diagnóstico de sífilis foi atrelado à notificação compulsória, o que ajudou nas estatísticas, aumentando o número de casos positivos.
É necessário que todo um trabalho seja realizado: a população esteja cada vez mais ciente do uso de preservativos, da procura por diagnóstico e tratamento, e que os órgãos competentes possam ser capazes de prestar um tratamento que não custa nem um pouco caro para os cofres públicos.

Para se aprofundar mais nos tipos de testes para diagnóstico da sífilis, indicamos um curso online e gratuito, o Telelab. Já falamos sobre essa plataforma do Ministério da Saúde, e lá você pode encontrar um curso completo sobre sífilis. Acesse clicando aqui! 



Referências bibliográficas:
Germano, F. A nova cara da Sífilis. Jun 2017. Disponível em: < http://super.abril.com.br/saude/a-nova-cara-da-sifilis/>.
Diagnóstico de Sífilis. Telelab. Disponível em: < http://telelab.aids.gov.br/index.php/component/k2/item/106-baixar-diagnostico-sifilis>.


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