terça-feira, 6 de dezembro de 2016


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Interpretação do crescimento de microrganismos na cultura primária


A análise inicial das culturas em um laboratório de microbiologia é extremamente importante. A observação quanto ao tipo de material semeado, ao meio de cultura, às informações dos pacientes, e características das colônias deve ser cuidadosa. Muitos espécimes clínicos possuem microrganismos como microbiota habitual, mas “nunca sem boas razões admita um microrganismo como contaminante porque ele não é um patógeno aceito. Nunca sem voas razões aceite um microrganismo como a causa de uma doença infecciosa meramente porque é um patógeno aceito”. 
Por isso, vamos tratar do início de uma análise microbiológica, passo muito importante para um bom resultado final. Esta postagem será baseada no livro “Procedimentos Básicos em Microbiologia Clínica”, Oplusti, C.P. et al., um excelente livro escrito que conta com uma biomédica como uma de suas autoras. 

MATERIAIS CLÍNICOS

Existem alguns materiais clínicos habitualmente estéreis, em que a presença de microrganismos geralmente indica infecção ou em alguns casos, contaminação de coleta. Outros materiais contam com uma microbiota (nomenclatura atual para “flora”) habitual, e neste caso, é necessário valorizar apenas bactérias que potencialmente podem causar a infecção.
As amostras clínicas que geralmente apresentam-se estéreis são:
·      Sangue;
·      Líquor;
·      Biópsias;
·      Líquido pleural, pericárdico;
·      Líquido sinovial;
·      Medula óssea.

As amostras clínicas que geralmente apresentam microbiota habitual ou colonização são:
·      Amostra do trato respiratório superior;
·      Amostra do trato respiratório inferior;
·      Fezes;
·      Secreções do trato genital.

Alguns microrganismos são mais frequentes a serem considerados patógenos em alguns tipos de materiais clínicos que apresentam microbiota habitual. Isto não significa que outros microrganismos possam causar infecção. Depende também do quadro clínico do paciente. Abaixo temos alguns exemplos:

·           Staphylococcus aureus: comum em amostras de escarro (principalmente em pacientes hospitalizados), secreção traqueal, secreção vaginal, secreção uretral, secreção de orofaringe (exceto em paciente com fibrose cística), secreção de orelha, aspirado de seio maxilar, secreção conjuntival e urina de primeiro jato (quando estiver predominando).
 
S. aureus. Fonte: Google.
·       Streptococcus agalactiae: secreção vaginal (microrganismo de suma importância em gestantes, sendo o material coletado o de introvaginal ou anorretal), secreção uretral, secreção conjuntival (importante em recém-nascidos), urina de primeiro jato.
 
S. agalactiae. Fonte: Google.

·        Haemophylus influenzae: escarro, secreção traqueal, secreção vaginal (importante em crianças), secreção de orofaringe (exceto em pacientes com fibrose cística), secreção de orelha, aspirado de seio maxilar, secreção conjuntival.
 
Haemophylus influenzae. Fonte: Google. 

·        Streptococcus pneumoniae: escarro, secreção traqueal, secreção de orofaringe (quando houverem colônias predominantes e em grande quantidade), secreção de orelha, aspirado de seio maxilar, secreção conjuntival.
 
S. pneumoniae. Fonte: Google.

·   Streptococcus pyogenes: secreção vaginal (importante em crianças), secreção de orofaringe, secreção de orelha, aspirado de seio maxilar e secreção conjuntival.
 
S. pyogenes. Fonte: arquivo pessoal. 

·          Moraxella catarrhalis: escarro, secreção traqueal, secreção de orelha, aspirado de seio maxilar.
 
Moraxella catarrhalis. Fonte: Google. 

·       Enterobactérias: escarro (importante em pacientes hospitalizados), secreção traqueal, secreção vaginal (importante em crianças), secreção uretral (quando estiver presente em quantidade ≥104 UFC/ml ou predominando), aspirado de seio maxilar, urina de primeiro jato (quando estiver predominando).
 
E. coli. Fonte: arquivo pessoal. 

·    Pseudomonas spp.: escarro (importante em pacientes hospitalizados e com fibrose cística), secreção de orelha, secreção conjuntival (importante em usuários de lentes de contato).

Pseudomonas aeruginosa (colônia superior). Fonte: Google. 

·  Neisseria gonorrhoeae: secreção vaginal, secreção uretral, secreção conjuntival (importante em recém-nascidos), urina de primeiro jato. 
 
N. gonorrhoeae. Fonte: Hard Diagnostics.

IDENTIFICAÇÃO DAS COLÔNIAS
           
Para a identificação das colônias, o primeiro passo é verificar o crescimento nas placas, observando as características morfológicas nos diferentes meios de cultura, as reações das bactérias nestes meios, a produção de odor, coloração, crescimento ou inibição de crescimento nos diferentes tipos de meios de cultura.

·      Características morfológicas das colônias

 É importante analisar as colônias quanto ao tamanho (diâmetro), bordas ou formas, elevação, cor, densidade, consistência e aparência da superfície da colônia. Por exemplo, a Klebsiella pneumoniae se apresenta como uma colônia grande e gomosa. O Streptococcus pyogenes se apresenta como uma colônia pequena.

·      Reações em determinados meios de cultura

Os meios de cultura utilizados devem ser pensados para a rotina de cada laboratório, pois eles ajudam na triagem inicial das culturas. Meios comuns como AS (Ágar Sangue), MC (MacConkey) e SS (Salmonella-Shigella) possibilitam que identifiquemos algumas bactérias inicialmente pela morfologia e reações provocadas nos meios de cultura. O AS é um meio de cultura produzido geralmente com sangue de carneiro, com hemácias íntegras, o que proporciona a formação de hemólises pelos cocos gram positivos. Elas são classificadas da seguinte forma:
·    Hemólise total (β-hemólise): representada por uma zona clara ao redor das colônias.
·    Hemólise parcial (α-hemólise): há formação de um halo esverdeado ao redor das colônias, indicando hemólise parcial das hemácias presentes no meio.
·  Ausência de hemólise (γ-hemólise): o meio permanece íntegro ao redor das colônias.

Em relação aos pigmentos, as colônias podem se apresentar em cores diferentes de acordo com a composição do meio, e isso ajuda na identificação. Alguns exemplos:
·      Amarelo : Staphylococcus aureus no AS.
·      Mostarda: Chryseobacterium spp. no AS.
·      Vermelho/Laranja: cepas de comunidade de Serratia spp. no MC.
·      Verde metálico com centro preto: Escherichia coli no EMB.

Há meios específicos para bacilos gram negativos, já que se isolados em AS, são muito parecidos. O MC e o SS são meios específicos e são amplamente utilizados para tal identificação. No MC, as bactérias que consomem a lactose (lactose positivas) ficam rosa, assim como a Escherichia coli e a Klebsiella pneumoniae. O Proteus spp. possuem colônias claras (lactose negativa), e a Pseudomonas aeruginosa produz uma colônia esverdeada. No SS, as colônias pretas são de bactérias que produzem H2S, facilitando a identificação de Salmonella spp. em amostras de fezes.
Existem meios cromogênicos, para bactérias e fungos leveduriformes, e a identificação é facilitada também pela diferenciação das cores. Um exemplo é o meio cromogênico da Plastlabor®, em que a E. coli cresce como uma colônia rosa, e a K. pneumoniae, o Enterobacter spp, e o Citrobacter spp, azul.

·      Produção de odor

As bactérias também produzem odor, e essa característica pode auxiliar o microbiologista na identificação. É importante ressaltar aqui que não deve-se cheirar diretamente a placa, mas sim, abrir a placa na distância do braço estendido e sentir de longe o dor emanado. Bactérias como Neisseria meningitidis, Brucella e Burkholderia pseudomallei não devem ser cheiradas, pois são altamente patogênicas. Segue alguns exemplos de odores produzidos pelas bactérias:
·      Odor de uva: Pseudomonas aeruginosa.
· Odor de água sanitária: Haemophylus influenzae, Shigella spp. e Eikenella corrodens.
·      Odor de fermento de pão: Klebsiella pneumoniae e Candida spp.
·      Odor de vinagre: Escherichia coli.
·      Odor de queijo: Staphylococcus spp. (S. aureus).
·      Odor de terra molhada: Streptomyces spp., Nocardia spp.
·      Odor de peixe: Acinetobacter spp. (principalmente em AS).
·      Odor de caramelo: Enterococcus spp. e alguns Streptococcus do grupo viridans.
·      Odor fétido: suspeitar de bactérias anaeróbicas.

Outras características apresentadas por testes mais específicos são utilizados para a identificação, manual ou automatizada, das bactérias. Mas isso é assunto para uma próxima postagem. Por hoje, é só!

Se tiver alguma dúvida, sugestão ou comentário, deixe aqui embaixo ou mande um e-mail para biomedemacao@gmail.com.br.


Bibliografia: Oplustil, C. P. et al. Procedimentos básicos em microbiologia clínica. 3ª ed. São Paulo : SAVIER, 2010.
As imagens do post foram retiradas do aleatoriamente do Google, para simples ilustração. Algumas são de arquivo pessoal. 
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